Lanterna Dos Afogados (Propósito)

O título do artigo remete a uma música famosa da década de 90 chamada a Lanterna dos Afogados. Nem todo mudo sabe, mas os Paralamas do Sucesso narram nesta música a história dos pescadores que saem para pescar, enquanto suas esposas ficam a beira mar com lanternas sinalizando o caminho de volta. É com esta história que iniciamos o nosso artigo, que tenta explicar os fundamentos clássicos iniciais da estratégia e a forma limitada como esta tem sido disseminada e implementada, prejudicando assim a sua finalidade máxima, que é de levar as organizações, de forma planejada, por meio da estratégia, a um objetivo futuro, claro, conciso e específico.

Há pouco tempo atrás, em uma rede social, levantou-se o questionamento quanto a validade da missão, da visão e dos valores nas organizações. Como exemplo surgiu a foto de um banner de uma famosa clínica com os seguintes dizeres: a missão aqui é cuidar das pessoas. Resgatando a literatura clássica sobre o tema estratégia, percebe-se que a missão funciona como a lanterna dos afogados, e assim como a lanterna sinaliza o caminho de casa, a missão deveria ou deve também sinalizar um caminho para a organização. Conforme Luecke (2008, p.15) “a criação da estratégia da empresa parte da missão, que define seu propósito e o que pretende fazer pelos clientes e outros interessados” É dentro deste contexto que surge algumas perguntas:

  • As pessoas entendem a missão da organização e quando começam o dia de trabalho na segunda feira aliam o seu o seu propósito de vida a esta missão?
  • As pessoas tomam decisões estratégicas, táticas e porque não operacionais considerando a missão da organização?
  • A necessidade de capital intelectual, considera em seus processos de contratação, que o propósito, presente na missão da organização, deve se ajustar ao propósito do colaborador?

Um artigo de uma página e meia, como o editor exige, traz mais perguntas que respostas, mas pode evidenciar alguns vícios que me faz duvidar do efeito positivo que o bonito quadro na parede se propõem a trazer. Não se trata de abandonar a necessidade de formalizar o propósito nas organizações através da missão, mas de repensar o fazer por fazer. Neste sentido me pergunto, se aquela reunião, em que os líderes das organizações passaram horas pensando na missão, realmente capturaram corações e mentes de apaixonados pelo que fazem, conduzindo assim a organização ao seu porto seguro, como as esposas sinalizam aos seus maridos em a lanterna dos afogados.

A leitura traz ênfase as pessoas e faz uma leitura crítica na forma como estas estão se conectando com as organizações por meio da missão, que a partir de agora vamos chamar de propósito (sem prejuízo ao fundamento estratégico clássico). Fica claro na lanterna dos afogados que a esposa e o marido reconhecem um propósito único, talvez por isso, mesmo a contragosto, suportam a saudade, entendendo as circunstâncias da distância em que se encontra. Neste exemplo, temos um paralelo de como as organizações e seus colaboradores devem juntos aliar os seus propósitos.

Sem a pretensão de tentar esgotar o tema, podemos apontar algumas alternativas que talvez tragam luz a problemática de aliar o propósito de organizações e de colaboradores que delas fazem parte. O primeiro passo nesta direção é conhecer o seu propósito, da mesma forma que a organização o faz. Aqui a premissa é que todos carregamos consigo aquilo que fazemos bem (e que as vezes desconhecemos).

O segundo passo nos remete a importância dos valores e é bem descrito por Mário Sergio Cortella em: Porque fazemos o que fazemos? Segundo Cortella (2016, p.91),

“A ideia de consciência sobre os propósitos está ligada à noção de valores. Quais são os meus valores? O que eu acho que vale e o que eu acho que não vale? A minha vida valerá de que modo? È uma vida com ou sem valia? Que valia eu quero colocar nela? Para que serve esta vida? Qual o meu papel dentro da estrutura em que atuo?

É inócuo apenas definir os valores e destacá-los por meio de dizeres no planejamento estratégico, que por vezes se perdem na completa desconexão com os colaboradores, se tornando assim, uma verdadeira carta de boas intenções, comum a tudo e a todos. A razão dos valores está na necessidade de a organização coadunar o seu propósito com o propósito das pessoas que a integram, isto é a essência! No limite nos perguntamos como um ambientalista trabalharia na indústria tabagista? Ou como o inquieto empreendedor se comportaria diante da lentidão da burocracia estatal? Ou se é possível, como um ativista social se comportaria em meio a Wall Street?

As perguntas supracitadas nos permitem entender o papel estratégico que os profissionais de recursos humanos possuem na prospecção inteligente dos candidatos aos postos de trabalho. As organizações vêm conseguindo capturar os valores dos colaboradores e integrando-os também por este critério? Além da prospecção eficiente, faz-se necessário sensibilizar aqueles que já estão integrados, formando-os em torno dos valores essenciais da empresa. Deve-se entender que a última opção, oferece um desafio maior, dada as dificuldades de se competir com a carga de valores construída ao longo da vida, que algumas vezes terá que ser reconstruída (é possível?). Claro que nem tudo é tão óbvio, e discordâncias de interesses podem coexistir por muito tempo, em razão da estabilidade laboral, que muitas vezes, principalmente em momentos de crise, assume o posto de preocupação principal. Também deve-se considerar a mudança de propósitos, possível e entendida em tempos de mundo liquido, afinal, empresas se reposicionam e pessoas mudam ao longo da vida.

O terceiro passo, a coerência, é um desafio constante, e mesmo que pessoas e organizações com propósito reconhecidos e comuns, estejam juntos e firmes diante de um mesmo desafio, nenhuma conexão de propósito será sustentável ao leve despertar de uma quebra de confiança entre as partes. Se não, como por crença em uma organização, que desperta no colaborador a sua importância, mas que tem em sua marca o estigma de possuir uma alta rotatividade de funcionários? É neste contexto que surge a necessidade da coerência entre os passos dados e o propósito de organizações e colaboradores.

Nos três passos (3C – conhecimento, concordância e coerência) o que se observa é que o campo ético e o autoconhecimento são decisivos e que os mesmos não são mutuamente excludentes, são inseparáveis, se o objetivo é alcançar o propósito comum, através da sincronia de propósitos. Nem pescador, nem esposa desconhecem o seu propósito, ambos estão em sintonia e todos, mesmo na adversidade, mantém a coerência dos passos com o propósito acreditando um no outro em a Lanterna dos Afogados.

Compartilhar
Carlos Márcio Campos Lima
Carlos Márcio Campos Lima
Parceiros
Receba Novidades
Cadastre seu e-mail e receba nossos conteúdos exclusivos.

*Não enviaremos spam

Entre em contato
[email protected]
Localização
Rua Tomás Acioli, 1493
CEP: 60135-180
Fortaleza-CE
Redes Sociais

© inovamundo. Todos os direitos reservados.