China, Israel, Brasil e um ponto em comum: a inovação

De um lado, a China com 1,3 bilhão de habitantes-consumidores, 10 mil anos de história, território continental e recursos naturais. Do outro, Israel com 0,1% da população de todo o planeta, 70 anos de existência formal e conflitos externos e internos. Entre os dois países, um ponto em comum: fomento à inovação tecnológica. Tão distintos em realidades, tão iguais em objetivos. China e Israel colhem hoje o que plantaram nos últimos 20 anos de desenvolvimento. Um investimento estruturado do poder público no fomento à inovação, com subsídios, educação e infraestrutura, sustenta o largo passo que hoje os distanciam de quase todo o mundo, inclusive o Brasil. 

 

China e Israel 

 

Na China, o uso de inteligência artificial está no dia a dia das pessoas. Reconhecimento facial não é algo do futuro. É parte do cotidiano, com mais precisão do que impressão digital ou assinatura. Tem validade legal para, por exemplo, empréstimos adquiridos via telefone celular, liberados em, pasme, até 3 minutos. Dá para conseguir um empréstimo durante um jantar e, ao final, pagar a conta.

 

Esse tipo de ferramenta propicia que cada vez mais dados sejam coletados e analisados. Quem trabalha e investe no varejo sabe que a mensuração de informações dos consumidores serve para corrigir falhas na estratégia de divulgação, racionalizar o estoque e tornar o produto atrativo para a compra. Mas e quando a pessoa sequer virou consumidora? Na China, já é possível averiguar os motivos que fizeram alguém desistir de uma escolha ainda no supermercado. Ao retirar o produto da gôndola, mas devolvê-lo em seguida, dados são gerados e, na sequência, analisados. O uso da inteligência artificial pode aumentar em até 25% a taxa de conversão na China, percentual enorme quando agregado a demais ações que levam à venda.

 

Em Israel, o investimento segue a necessidade. Com população 150 vezes menor do que a China, mercado interno restrito e regiões desérticas em mais da metade do território, o país busca independência de recursos. Tem o mesmo tamanho que a Paraíba, e apenas 20% de terra arável. Apesar disso, reúne mais de 400 startups de tecnologia agrícola, as agritechs. Mesmo a China tendo a maior fabricante mundial de drones, é Israel que produz drones que escolhem as maçãs maduras em uma plantação e as colhem!

 

O país está em um seleto grupo de nações com a maior diversidade de tecnologias limpas e fornece soluções de cibersegurança para o mundo inteiro. Em maio deste ano, por exemplo, a israelense Deep Instinct começou a trabalhar com a HP no desenvolvimento de ferramentas com inteligência artificial para evitar ataques aos notebooks da marca.

 

Os alicerces governamentais de Israel e China estruturaram a inovação de uma forma que garante o surgimento de fintechs, empresas com expertise tecnológica que oferecem serviços bancários. Ou seja, além dos bancos tradicionais, israelenses e chineses têm a alternativa oriunda do avanço tecnológico. Aqui as fintechs começam a ganhar relevância. O terreno é fértil, com 60 milhões de brasileiros sem conta bancária, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

 

Em Israel, o Estado chamou para si a responsabilidade de fornecer as leis necessárias para tornar o país uma referência em inovação. Além disso, facilita o acesso a financiamento e dá as diretrizes para os próximos anos. As regras orçamentárias fazem com que 4% do Produto Interno Bruto sejam destinados a inovação. Para tanto, fortaleceu seu ecossistema de startups com fundos de venture-capital, aceleradoras e incubadoras, que têm segurança jurídica e econômica. Os fundos de venture capital já estão maduros, realizando muitas saídas bem sucedidas de investimentos.

 

Brasil

 

Já o ecossistema de inovação brasileiro é o mais robusto da América Latina e Caribe, e chegou a esse patamar em menos de 20 anos. A magnitude dos avanços em tão pouco tempo impressiona, não apenas pelo tamanho do ecossistema (startups, estímulo à pesquisa, hubs de fomento ao empreendedorismo, incubadoras, aceleradoras, espaços de coworking, instituições de capacitação, redes de investidores e fundos) mas também por sua qualidade e capacidade de impulsionar o desenvolvimento. E não faltam áreas que comprovem o crescente impacto à sociedade por meio de tecnologias escalonáveis: saúde, educação, mobilidade urbana, saneamento básico, inteligência tributária, apenas para citar algumas.

 

Não por acaso, o Brasil é destino de quase 50% dos investimentos de capital estrangeiro em negócios da região, e o número de unicórnios (empresas que alcançam valores de mercado acima de US$ 1 bilhão) vem se superando anualmente. Mas ainda há muito o que ser conquistado, afinal o ecossistema brasileiro continua em formação e, portanto, sua trajetória apresenta lacunas internas e externas que desaceleram sua capacidade de gerar ainda mais entregas, principalmente no longo prazo e de maneira mais abrangente, inclusiva e integrada. Uma delas é a pulverização da inovação pelo país. Apesar da satisfatória presença de comunidades de empreendedorismo tecnológico em sua extensão territorial, com atuação importante em localidades como Tocantins, Roraima, Pernambuco, Mato Grosso e Goiás, ainda existe elevada concentração no Sul e no Sudeste. 

 

O justificado direcionamento econômico dessas regiões mostra como o estímulo a ambientes mais produtivos pode fortalecer milhares de startups, especialmente as localizadas em áreas mais vulneráveis. A estratégia? Disseminar a transformação cultural em sua potência máxima para a construção de um mercado fértil ao investimento e, consequentemente, a geração de negócios e empregos. Empreendedores, grandes empresas, sociedade e instituições governamentais são beneficiadas. A união com este último é um exemplo de como atingir velocidade na resolução de problemas na nossa matriz de forma muito mais custo-efetiva. É a reconhecida relação de ganha-ganha.

 

A mesma aproximação se aplica ao processo de internacionalização do ecossistema nacional. Uma proporção relativamente baixa de negócios no Brasil tem explorado possibilidades além das fronteiras. A recíproca também é verdadeira dado que um número pequeno de startups da América Latina e Caribe estão conectadas ao movimento de inovação interno. Claro que uma razão natural para este cenário é o tamanho do nosso mercado que já tem proporções continentais. No entanto, redirecionar esforços para conquistar espaço vizinho, que apresenta muitas características (e desafios) semelhantes às encontradas no Brasil, é um passo significativo ao intercâmbio de influência entre negócios promissores.

 

Desta forma, é importante visão unificada para que o ecossistema brasileiro amplie sua capacidade de impacto de forma mundial. A começar pela conexão dentro de casa, integrando cada vez mais todas as regiões do país a um ecossistema estruturado e o envolvimento do setor público em todas as esferas. Além disso, conversar com os países da América Latina e Caribe e do mundo, amplia o poder de oportunidade, retroalimentando as experiências de larga escala. A exemplo das práticas semelhantes adotadas em Israel e Estônia, países que conseguiram reconhecimento internacional de seus ecossistemas.

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Sara Café
Sara Café
Jornalista do Inova Mundo
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