Quanto custa um café – A ÉTICA DO ENCONTRO

Coado, expresso, forte, em cápsula, torrado, ou em pó, costumo tomar vários por dia, sozinho ou na companhia dos amigos. Afinal de contas, tomar café é bom demais, além de ser também, um bom motivo para um encontro. O problema é quando os motivos de alguns encontros que lhe são propostos, não ficam previamente claros e por trás desse suposto desejo de rever um colega e colocar o papo em dia, reside, na verdade, uma intenção de “pegar luz”   –  termo popularmente utilizado para designar o ato de obter, de forma não tão explícita, opiniões, conselhos e orientações profissionais gratuitas.

 

Refiro-me aqui ao “cafezinho” de cunho profissional e não aos despretensiosos e valorosos encontros com velhos e novos amigos ou familiares para estar mais perto, matar a saudade e jogar conversa fora. Como lembra um colega empreendedor, “dependendo do amigo, até considero uma oportunidade pra um direcionamento… Porém não pode virar rotina.”.

 

A expressão resume com clareza o que está acontecendo hoje. É óbvio que precisamos e devemos, como cidadãos, ajudar a quem precisa. Mas a rotina tem se tornado um mau hábito, sobretudo, da parte daqueles que possuem condições de pagar, mais do que algumas xícaras de café, aos colegas profissionais que podem, de fato, resolver questões importantes para o interlocutor.

 

Tenho observado que estamos vivendo sob a “hegemonia da gratuidade”. Cobrar é um ato quase ofensivo! Cursos, palestras, oficinas, eventos, tudo é de graça e infeliz daquele ou daquela que se atreva a estabelecer um preço. Será chamado de mercenário, capitalista, insensível, mesquinho ou qualquer outra coisa que o valha. Há também uma grande confusão sobre alguns conceitos, senão vejamos:

 

Recentemente, recebi por whatsapp um vídeo do Érico Rocha em que ele explicava de forma muito simples a quem o procurava pedindo um conselho profissional, a diferença dessa atitude para uma consultoria. Segundo o autor, “conselho é rápido e de graça, já a consultoria requer mais tempo, é um processo mais complexo e é pago”. Achei prático, simples e objetivo. Tão logo o vídeo foi postado, diversas pessoas se manifestaram contra e a favor da mensagem. O argumento daqueles que discordaram do vídeo, baseavam-se fundamentalmente na necessidade de fornecer conhecimento gratuito a quem não tem poder de investimento, tendo em vista muitas pessoas precisam ser ajudadas de forma voluntária, como acontece no caso das mentorias.

 

Entendi perfeitamente a preocupação externada, sobretudo com aqueles que não podem pagar. Ocorre que não é esse é o ponto. Em muitos casos, há capacidade de pagamento por parte daquele que demanda por orientação, mas ela é soterrada pela institucionalização da gratuidade, como regra de relacionamento profissional. Ser voluntário faz bem e é necessário num país em que tantos precisam. Todavia, como o próprio nome diz, essa modalidade se traduz num ato de vontade, previamente acordado e ao qual o profissional pode ou não aderir, de acordo com suas limitações de tempo, capacidade técnica, interesse pela causa e por aí vai…

 

A confusão fica ainda maior quando colocamos termos como “mentoria”, “trabalho voluntário” e “consultoria”, no mesmo cesto.

Mentorias não são obras do acaso e nem se resolvem numa simples conversa. Via de regra, requerem reuniões sistemáticas e uma relação de médio prazo entre mentor e “mentorado”. Em relação à gratuidade desse tipo de suporte, há também diferentes correntes de pensamento. A Rede de Mentores do Brasil, por exemplo, defende que a mentoria deve ser gratuita, ao passo que a Associação Brasileira de Mentores – ABMEN, não vê problemas que ela seja remunerada.  Há ainda quem proponha aos empreendedores, permutar as horas técnicas por uma participação no negócio.

 

Trabalho Voluntário é regulamentado por legislação própria (Lei nº 9.608, de 18 de fevereiro de 1998), caracterizando-se como “atividade não remunerada prestada por pessoa física a entidade pública de qualquer natureza ou a instituição privada de fins não lucrativos que tenha objetivos cívicos, culturais, educacionais, científicos, recreativos ou de assistência à pessoa” e, como tal, não pode se confundir com mentoria.

 

Por fim, mas não por último, a nossa velha, conhecida e boa Consultoria, em suas mais diversas modalidades e áreas, tem possibilitado dias melhores a muitas pessoas e organizações. Trata-se aqui, de modalidade clássica de prestação de serviços remunerada.

 

Importante notar que todas essas modalidades de relacionamento são possíveis e eficazes, mas que necessitam de um elemento comum para virar realidade: a TRANSPARÊNCIA, assegurada às partes, pelo conhecimento prévio das regras que irão reger a futura relação.

 

A essas alturas, o leitor pode estar se perguntando “e o café, onde foi parar o café?” Bom, voltemos à pergunta formulada no início do texto. “quanto custa um café?”

A resposta é: depende… Isso mesmo!

Sabemos que PREÇO é o numerário que você desembolsa para ter determinado produto e VALOR é o que você percebe em termos de benefícios e que justifica pagar o PREÇO. A questão é que o café, nesse caso,  assim como a música ambiente, a decoração, o serviço, etc., são meros elementos de composição de uma coisa maior que me permito chamar aqui de ENCONTRORIA, para ilustrar uma forma “expressa como um café”, de receber mentoria ou consultoria, num simples encontro.

 

Falo aqui, da ÉTICA DO ENCONTRO que precisa exercitar a transparência e a empatia para, de fato, acontecer. Um encontro saudável deve: a) construir uma relação em que ambos ganhem; b) ser claro, verdadeiro. É sobre esses dois pilares que se constrói CONFIANÇA, base para todas as relações. Isso posto, seguem algumas dicas para um bom café:

 

DEMANDANTE

 

Seja claro no que precisa (consultoria, conselho, mentoria);

 

Negocie, dentro de suas possibilidades e quando for o caso, o preço do serviço desejado e a forma de pagamento;

 

Se não puder pagar, pague. Estranho? Vou explicar. Você dever ter ouvido ou visto uma expressão (se não, vai ver agora) que foi slogan de um cartão de crédito e dizia “há coisas que o Credicard não compra”. Adoro essa frase e me atrevo a complementar com “e nem paga…”. Pois é. Dinheiro não é tudo e as coisas mudam com o tempo. Um elogio em público, um agradecimento em particular, um acesso a um amigo comum, uma indicação de oportunidade, etc. Há sempre formas de retribuir a gentileza com outra gentileza. A isso, dá-se o nome de GRATIDÃO!

 

Reuniões longas não são um simples “cafezinho”. Evite abusar do tempo do outro;

 

Pense não somente no que você vai ganhar mas crie uma proposta de valor para o outro;

 

Reuniões sem propósito claro geram perda de tempo, energia e levam ao descrédito. Planeje-se….;

 

Pague o café. É de bom tom… principalmente se é você quem precisa e convidou.

 

OFERTANTE

 

Seja claro quanto à sua atuação profissional e modalidade de trabalho;

 

Se for participar voluntariamente, estabeleça limites;

 

Valorize seu trabalho, conhecimento, anos de estudo e experiência;

 

Seja generoso e ajude a quem precisa. Perceba que nem tudo se paga com dinheiro e que você poderá ganhar reconhecimento, networking, divulgação, reputação;

 

Lembre-se que as circunstâncias podem mudar um dia. Portanto, seja justo e simples;

 

Mesmo que tenha sido procurado, se ofereça pra pagar ou dividir a conta;

 

E agora, preparado para tomar um bom café?

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Mário Gurjão
Mário Gurjão
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